sexta-feira, 6 fevereiro, 2026
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Oscar 2026: Quando a ficção se parece demais com o noticiário

Por Eliaquim Junior“Precisamos salvar o mundo, e precisamos começar eliminando os imigrantes.” Não, a frase não saiu da boca de Donald Trump — embora pudesse tranquilamente ter saído —, mas é dita no elogiado Uma Batalha Atrás da Outra. Ainda assim, a política anti-imigração do presidente dialoga de forma desconfortavelmente direta com o novo filme de Paul Thomas Anderson — PTA, para os cinéfilos — indicado a 13 categorias e com chances nada modestas de levar Melhor Diretor e Melhor Filme na noite de 15 de março.

Uma Batalha Atrás da Outra é um filme urgente, desses que parecem ter sido escritos com o noticiário aberto ao lado. Ele reflete os Estados Unidos de hoje, 2026, em estado de surto permanente, onde imigrantes são deportados ou vivem sob ameaça constante. Na obra de PTA, infelizmente, não há nenhum cantor porto-riquenho mega popular, com capital midiático e carisma suficientes, para olhar para a câmera e decretar: “basta, não somos animais”.

A brutalidade policial também marca presença aqui, como quem não quer deixar dúvidas de que esta ficção tem mais compromisso com a realidade do que muitos discursos oficiais.

Acompanhamos Bob (Leonardo DiCaprio) e Perfidia (Teyana Taylor), integrantes de um grupo de resistência que, logo no início, libertam imigrantes de um campo de aprisionamento. Na mira do coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn, exagerado, impagável — até o jeito de andar é uma piada em ebulição), a dupla vê suas vidas virarem alvo de uma perseguição que se estende por mais de dez anos. E, não, não entrarei em detalhes — o caos e a tensão merecem ser descobertos na tela.

Leonardo DiCaprio como Bob, em uma caracterização que evoca tanto Jack Nicholson quanto Jeff Bridges, em O Grande Lebowski

O que importa é que PTA entrega uma obra tragicômica e hipnótica: um “filme-denúncia” que mistura vislumbres visuais e interações dignas dos irmãos Coen, com explosões de violência que lembram Scorsese.

O resultado é um filme que transita entre gêneros com charme, sem jamais perder identidade. Há drama familiar, perseguição automobilística (uma das melhores do cinema, sem exagero), suspense policial e momentos cômicos involuntariamente geniais — como o personagem de DiCaprio tentando carregar o celular ou esquecendo a senha.

No fim das contas, Uma Batalha Atrás da Outra é, acima de tudo, um filme relevante, urgente e incômodo. Como toda boa obra deveria ser. Está disponível na HBO Max.

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.

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