Contato: eloizanetti@gmail.com – Texto em memória ao cão Orelha de Florianópolis, morto de forma brutal.
Moradores de rua, como em qualquer lugar do mundo, se fazem acompanhar de cães – deve ser uma forma de se socializarem. Observe quando se movimentam, o líder, o morador de rua, ao se locomover, carrega consigo os cães que, obedientes, andam sempre atrás do chefe. Se ele para, os cães param, se ele dorme nas calçadas, os cães se aninham e esperam a ordem de se locomoverem. Cães de rua são sempre mais resolvidos, espertos e serenos do que os cães de raça. Eles sabem quem é o chefe e não discutem a hierarquia. Raramente atacam alguém e só brigam em caso de invasão de território ou quando defendem seu alimento.
Como adoro vira-latas, quando morava em Curitiba adotamos uma cadela que havia sido atropelada em frente ao Shopping Cristal, daí seu nome: Cristal. Ela foi medicada, operada e se recuperou. Para não perder o costume, todo o dia pedia para sair à rua, ia e retornava umas duas horas depois, faceira e feliz. Ao voltar, latia no portão até que alguém a deixasse entrar. A vizinhança já sabia quem ela era e onde morava. Quando saímos para passear juntos eu percebia que, pela sua experiência, evitava se meter em fria; se enxergava ao longe alguma aglomeração ou um cachorro maior, tratava de evitar o futuro obstáculo ou confusão desviando o caminho.
Contam que Tom Jobim e Vinícius de Moraes adoravam seguir grupos de cães pelas ruas, especialmente quando havia uma cadela no cio. Quando um deles descobria um bando ligava para o outro e saíam observando o comportamento da matilha. Era uma forma de se divertirem, flanar, observar o cotidiano e, talvez, preparar o espírito para alguma criação musical.
Durante certo período da minha vida, por viajar muito por cidadezinhas e lugarejos remotos, comecei a observar que o ritmo das populações locais é marcado pela movimentação dos seus cães. Se num povoado os cães estão em frenesi, andando para baixo e para cima, o comércio local está movimentado. Se os cães estão parados, descansando embaixo dos bancos de praças ou nos gramados, o lugarejo também está parado. Com o tempo comecei, só por brincadeira, a fotografar cães de rua de diferentes lugares, e colocava as fotos na parede do meu escritório.
Havia fotos de cães em Guaraqueçaba, em uma zona de garimpo em Rondônia, em uma cidadezinha do interior do Mato Grosso e até de cães numa praia em Fernando de Noronha. Alguns amigos fotógrafos começaram a colaborar e me enviar fotos sobre o assunto. Em pouco tempo juntei uma galeria de imagens curiosas. A mais instigante era a do meu amigo Ney Alves de Souza – um cão andando e se equilibrando na borda de uma enorme cachoeira, dentro da água. Ele havia feito a foto no interior do Maranhão, quando levantava informações para o primeiro Guia Quatro Rodas a ser editado.
Cães de rua trazem a genética da mistura: todas as raças estão ali representadas. Assisti a um documentário sobre cães do terceiro mundo, e o trabalho falava das misturas das raças que ainda existiam nos países onde os cães ainda circulam de forma livre. As cenas foram feitas no México e no Brasil. É uma pena que, com o crescimento das cidades e por medidas profiláticas, os cães de rua estejam desaparecendo.
Restam os que vivem acompanhados por seus donos, os moradores de rua e os que ainda sobrevivem nas pequenas cidades do interior. Quando têm a sorte de serem adotados por um dono, são serenos, calmos e resolvidos; quando não, passam fome, apanham muito, são assustadiços e andam com o rabo entre as pernas. Daí a expressão: “complexo de vira-latas” – com que Nelson Rodrigues cunhou a Seleção Brasileira da Copa de 58 – errou na previsão.
A Seleção vira-latas sagrou-se campeã.

*Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com
