sexta-feira, 30 janeiro, 2026
HomeDestaquePecadores: 16 indicações e nenhuma paciência para o preconceito

Pecadores: 16 indicações e nenhuma paciência para o preconceito

Por Eliaquim JuniorPecadores é o filme com o maior número de indicações ao Oscar 2026, nada menos que 16. La La Land até tentou, chegou a 14. Titanic também — e, vejam só, nem afundando tão dramaticamente conseguiu ir além disso. Ambos ficaram para trás. (alerta de spoilers)

Mas o feito de Pecadores não se resume a números, o que seria simples demais. O detalhe que realmente merece comemoração é outro: trata-se de um filme de terror. Sim, terror. Mais especificamente, de vampiros. Ou seja, não é apenas um filme com 16 indicações, é um filme de vampiro com 16 indicações à maior premiação do cinema. Algo que, convenhamos, a Academia costuma tratar como se não existisse. Portanto, é pouco? Não. É histórico. Quase um milagre cinematográfico.

Claro, antes que alguém se assuste (ou torça o nariz), vale ressaltar: Pecadores não é “só” terror. Ele também se apresenta como um drama histórico, daqueles que cutucam feridas abertas da humanidade. Fala de segregação racial, de liberdade e, curiosamente, usa o subtexto vampírico apenas para lembrar que a monstruosidade humana é bem mais resistente do que qualquer exposição ao sol.

Michael B. Jordan (indicado ao Oscar de Melhor Ator) brilha duplamente ao viver os gêmeos Fumaça e Fuligem, que pretendem abrir um respeitável – ou não tanto – “local do pecado” para a comunidade negra dançar, cantar e criar boas memórias, isto é, um refúgio temporário para esquecer, ainda que por poucas horas, a dura realidade do campo e da colheita de algodão.

Pecadores concorre a 16 categorias no oscar 2026: feito histórico. Reprodução

Miles Caton, no papel do jovem Sammie, também chama atenção, ainda mais se considerarmos que este é seu primeiro trabalho no cinema. Começar assim não é exatamente o que se chamaria de entrada modesta.

Ryan Coogler, depois de dirigir vários Creed, entrega aqui o que parece ser seu filme mais pessoal. A originalidade da história e a riqueza de detalhes do universo criado dão a impressão de que estamos assistindo a memórias suas — ou de sua família — ganharem forma.

O blues que ecoa ao longo do filme talvez seja o mesmo que tocava na vitrola da infância. Já os vampiros, mais do que criaturas sobrenaturais, funcionam como uma metáfora nada sutil: o diabo, o mal encarnado no homem branco incapaz de tolerar pessoas negras — ou pior, incapaz de tolerar seu modo de existir, cantar, dançar, suar e, ousadia máxima, se divertir.

Pecadores está disponível na HBO Max. Se ainda não assistiu, corre logo — ou o vampiro aparece. E ele não costuma pedir licença – na verdade, ele pede.

PS: A sequência de música e dança que evoca a ancestralidade negra ao longo da história, em suas várias épocas e manifestações, é uma das cenas que fazem o Cinema valer a pena. Só ela já faz valer as 16 indicações ao Oscar.

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.

Leia também:

Hamnet: amor, luto e a coragem de sentir até o fim

Leia Também

Leia Também