
Na madrugada de 31 de maio, o fotógrafo Daniel Castellano registrou a impressão da última edição da Gazeta do Povo, no barracão da Rua Pedro Ivo, em Curitiba. Foi uma cena emocionante. Castellano, que foi demitido do jornal há cerca de um mês, depois de mais de uma década trabalhando no departamento fotográfico, acompanhou todo o processo de impressão executado pelos gráficos nas rotativas. Desde o momento em que a edição de número 31.886 foi finalizada pela redação, por volta de meia-noite, fotolitada em negativo, gravada em chapa e levada à offset. As derradeiras 40 páginas.
HUMANAS, DEMASIADAMENTE HUMANAS
As fotos são humanas, demasiadamente humanas, como diria Friedrich Nietzsche. Castellano documentou o trabalho dos gráficos na impressão, no corte, na dobra e no transporte do jornal. Há imagens demasiadamente humanas de mãos sujas de tinta, de rostos sujos de tinta, de jornais sujos de tinta. A última área de mancha, como descrevem tecnicamente os que ali trabalham, porque sabem que é sempre em um borrão inteligível de tinta que o jornal se traduz.
Quando a impressão chegou ao fim o relógio marcava 1h10min da madrugada. Era outono, talvez fizesse frio no último dia do mês de maio do ano de 2017. A Gazeta completava ali um ciclo de 99 anos em papel jornal.
SILÊNCIO
A expressão “Parem as rotativas” sempre foi usada no jornalismo para referir-se a uma manchete que se sobrepunha à outra de maior importância. Desta vez, a ordem provocou o silêncio das máquinas. Houve sensação igual em outros momentos em que o presente se impôs ao passado. O rastro, no entanto, é sempre amargo. Daniel Castellano soube inscrever esse período na história. Obrigado, Daniel.

