No fim dos anos 90, circulava nos e-mails uma bem humorada lista de manchetes do fim do mundo. Entre elas, a de “Veja” (Entrevista com Deus), a da “Folha” (Saiba como o mundo vai acabar), a do “Globo” (Governo anuncia fim do mundo), a do “Zero Hora” (Rio Grande vai acabar) e a da “Gazeta do Povo” (Finda o mundo hoje). O verbo “findar” não era utilizado por acaso no jornal. Era mais curto que “terminar”. E naquela época títulos eram calculados em toques. Três (linhas) de 12 caracteres, por exemplo. Doze caracteres exatos! Imagine o contorcionismo dos editores.
VERSÃO DIGITAL
A edição impressa da Gazeta finda nesta quarta-feira, 31 de maio, e o gostinho é o de “Game is over”. Há argumentos suficientemente convincentes para determinar a migração do jornal para a versão digital. Mas nem todos eles parecem converter o leitor. Uma delas refere-se exatamente ao fim do mundo. Na versão em papel, você jamais estaria preocupado em não ler a apocalíptica notícia impressa. No digital, há sempre a possibilidade da bateria do celular (ou do tablet) acabar antes do fim propriamente dito.
Em obra recente, Umberto Eco e Jean-Claude Carrière percorreram 5 mil anos de história para provar que o livro não vai acabar (“Não contem com o fim do livro”, Record, 2010, 274 págs.), assim como a roda não acabou. Sofrerá mutações, mas não será extinto.
O mesmo se pode dizer do jornal. É difícil imaginar que as notícias em papel sucumbam nos próximos anos. Se a “Gazeta do Povo” assume o risco, ela deve estar preparada para as dificuldades que se apresentam e que, por ora, não vislumbram solução.
A percepção sensorial é uma delas. O manuseio é outro. Afinal, você não dobra o celular duas ou três vezes para ler uma notícia específica como faz com o jornal de papel. Um caderno não pode ser descartado conforme a leitura avança ou deixado de lado, no caso dos classificados. São questões práticas e nada banais.
EMBRULHO DE PEIXE
Um celular é delicado. Papel é papel. Vai embrulhar o peixe no dia seguinte, numa das máximas da breve vida da notícia. Mas isso jamais vai acontecer na versão digital. Saber que a reportagem está lá, que é perene na internet, é bom para alguns, mas péssimo para aqueles que têm que se defrontar com ela todos os dias. Há um cansaço crescente, da notícia que era ontem e é hoje, com pequenas alterações. Vide o caso da operação Lava-Jato.
POP-UP
Outro aspecto que, por enquanto, revela-se insolúvel: a publicidade. Ler a versão digital de qualquer jornal ou revista é driblar os anúncios que pulam na tela. E se não pulam, intercalam o texto. E se não intercalam, ladeiam. É chato.
A solução, ao que parece, não é mimetizar o impresso, mas despertar a curiosidade do leitor. Os sites já andam fazendo isso, travestindo o que é publicidade em notícia. O problema é que ela é vendida como notícia, donde entramos em outra seara: a do “fake news”.

Ler exige um tipo de concentração que difere do modo com que vemos TV ou ouvimos rádio. Há aspectos sensoriais que devem ser respeitados e não podem ser bruscamente interrompidos por um pop-up ou um comercial que ninguém , ninguém mesmo, pediu para ver ou ouvir.
DESDE O TEMPO DAS CAVERNAS
Umberto Eco e Jean-Claude Carrière estão certos ao defender a perenidade do livro e do jornal, independente de seu formato ou de sua evolução tecnológica. O que você vê, no fim das contas, é um texto impresso em versão digital. Com título, texto, fotos e legendas. A informação está ali, nos padrões concebidos pelo homem desde que começou a desenhar nas paredes das cavernas. Só os símbolos tomaram outra forma. Eco argumenta que algumas coisas não mudaram. Cita a roda, a colher, o martelo, a tesoura. Deveria citar também o teclado da máquina de escrever, ainda que este seja mais contemporâneo. É inegável a sua praticidade longeva, da mesma forma que improvável sua substituição por uma espécie de ditafone digital, como quer o Google. Falar não é o mesmo que escrever.
DE CAUSAR RUGAS
Outro aspecto que conspira contra a versão digital do impresso é a sua forma de leitura. Virar páginas e percorrê-las uma a uma é um aspecto prazeroso da leitura de um jornal e não se resume apenas à cata de notícias ou de imagens, mas também ao contato físico com o papel. Há também um sentido de leitura – na diagonal, do canto superior esquerdo para o canto inferior direito em ondas visuais. Esta regra é obedecida na versão digital? Talvez no computador, mas não no smartphone. E percorrer a página usando a ferramenta “touch-screen” não é exatamente uma diversão. Pelo contrário. Emperra, dá nos nervos, causa rugas.
ERA ALFABÉTICA
Se há algum ponto positivo nisso tudo? Claro que há. A internet, como diz Umberto Eco, nos devolveu o alfabeto. “Se um dia acreditamos ter entrado na civilização das imagens, eis que o computador nos reintroduz na galáxia de Gutenberg, e doravante todo mundo vê-se obrigado a ler”. Parece confortante.
Há outro ponto. Se o incunábulo reinou até o final do século XV, cinquenta anos após a invenção da prensa, vivemos, seja no livro, no jornal, na revista, ou no smartphone, a era pós-incunábulo. Não importa o suporte, ler continua sendo a melhor a melhor ferramenta para informação. Se a “Gazeta is over”, basta dar um restart. É do que se trata. O jornal é sempre um jogo de vida e morte. Por isso, era comum nos diários que a lista de nascimentos viesse acompanhada do obituário. O impresso morreu? Viva a era digital.
Mas não nos furte o prazer de ler.
