
Um livro sobre autismo escrito por um autista em tom confessional. É do que trata “O que eu nunca disse antes”, de Federico de Rosa (Edições Paulinas, R$ 29,50, 184 págs.). Federico é um italiano, de 24 anos, mora em Roma, mede 1,85m de altura, tem olhos azuis e uma indefectível cara de bebê.
Crer que o livro tenha sido escrito por ele é, de pronto, o primeiro desafio que se propõe ao leitor. Pois foi. Federico foi diagnosticado, ainda pequeno, com um tipo de autismo severo. Até hoje articula poucas palavras, escreve a mão em letras maiúsculas e desproporcionais e ainda se esforça para interagir com as pessoas. Como então acabou escrevendo um livro? O computador o ajudou.
PRAZER, COMPUTADOR
No começo da adolescência, ele foi apresentado a um PC e não demorou a traduzir em palavras digitas o que ia pela sua cabeça. Federico tem ideias complexas e verte isso para o livro digitando apenas com o indicador da mão, o que torna o trabalho ainda mais reflexivo.
Nada mal para um menino que, ao passear com os pais, precisava retornar ao ponto de partida dando uma grande volta. Não conseguia simplesmente fazer o caminho de ida no sentido inverso.
DIFERENTES ENTRE SI
De fato, não há simplicidade no espectro autista. As nuances são muitas. A tal ponto que Federico relata que nunca encontrou um autista que não fosse diferente dele próprio.
Para ele, há só um grupo homogêneo: o dos não-autistas, que ele denomina típicos ou neurotípicos. São os normais, ainda que intrinsecamente diferentes.
O MUNDO LÁ FORA
A lógica de Federico é impressionante. Assim como suas habilidades. No livro, ele narra de forma lógica o processo da doença, suas dificuldades na escola, o esforço dos pais para estimulá-lo a sair do seu próprio mundo, o encontro com o computador e, por fim, sua epifania religiosa. Federico é capaz de contar uma história em voz baixa para si mesmo enquanto houve a explicação do professor. É capaz de ouvir duas conversas simultâneas na mesa ao lado. É capaz de saber tudo, tudo mesmo, sobre um determinado assunto. Aprendeu latim, física, química, história e filosofia na escola. Mas mal consegue falar, ao contrário, por exemplo, de um portador de Asperger, que é surpreendentemente tagarela.
MICROCOSMO
O livro é um grande apanhado de vida ou uma pequena fatia dela, um microcosmo do autor-personagem, mas não menos inspirador. Livros como “O que eu nunca disse antes” integram a política editorial da octogenária Edições Paulinas, fundada em 1931. Em um mercado livreiro tomado de brochuras de autoajuda, infanto-juvenis e obras de ficção duvidosa (a maioria escrita por atores e celebridades), chega a ser alentador um catálogo de caráter humanista.
OPÇÃO NAS PRATELEIRAS
Não se trata de impor uma linha, mas de oferecer uma alternativa. Há mesmo um sem-número de opções nas prateleiras, um leque vasto de livros de preços não proibitivos, mesmo em meio à crise. Saber que o volume de Federico de Rosa está entre eles é, para o leitor, algo confortante.
