quinta-feira, 7 maio, 2026
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O autismo contado por um autista é o tema de “o que eu nunca disse antes”

Capa do livro “O que eu nunca disse antes”
Capa do livro “O que eu nunca disse antes”

Um livro sobre autismo escrito por um autista em tom confessional. É do que trata “O que eu nunca disse antes”, de Federico de Rosa (Edições Paulinas, R$ 29,50, 184 págs.). Federico é um italiano, de 24 anos, mora em Roma, mede 1,85m de altura, tem olhos azuis e uma indefectível cara de bebê.

Crer que o livro tenha sido escrito por ele é, de pronto, o primeiro desafio que se propõe ao leitor. Pois foi. Federico foi diagnosticado, ainda pequeno, com um tipo de autismo severo. Até hoje articula poucas palavras, escreve a mão em letras maiúsculas e desproporcionais e ainda se esforça para interagir com as pessoas. Como então acabou escrevendo um livro? O computador o ajudou.

PRAZER, COMPUTADOR

No começo da adolescência, ele foi apresentado a um PC e não demorou a traduzir em palavras digitas o que ia pela sua cabeça. Federico tem ideias complexas e verte isso para o livro digitando apenas com o indicador da mão, o que torna o trabalho ainda mais reflexivo.

Nada mal para um menino que, ao passear com os pais, precisava retornar ao ponto de partida dando uma grande volta. Não conseguia simplesmente fazer o caminho de ida no sentido inverso.

DIFERENTES ENTRE SI

De fato, não há simplicidade no espectro autista. As nuances são muitas. A tal ponto que Federico relata que nunca encontrou um autista que não fosse diferente dele próprio.

Para ele, há só um grupo homogêneo: o dos não-autistas, que ele denomina típicos ou neurotípicos. São os normais, ainda que intrinsecamente diferentes.

O MUNDO LÁ FORA

A lógica de Federico é impressionante. Assim como suas habilidades. No livro, ele narra de forma lógica o processo da doença, suas dificuldades na escola, o esforço dos pais para estimulá-lo a sair do seu próprio mundo, o encontro com o computador e, por fim, sua epifania religiosa. Federico é capaz de contar uma história em voz baixa para si mesmo enquanto houve a explicação do professor. É capaz de ouvir duas conversas simultâneas na mesa ao lado. É capaz de saber tudo, tudo mesmo, sobre um determinado assunto. Aprendeu latim, física, química, história e filosofia na escola. Mas mal consegue falar, ao contrário, por exemplo, de um portador de Asperger, que é surpreendentemente tagarela.

MICROCOSMO

O livro é um grande apanhado de vida ou uma pequena fatia dela, um microcosmo do autor-personagem, mas não menos inspirador. Livros como “O que eu nunca disse antes” integram a política editorial da octogenária Edições Paulinas, fundada em 1931. Em um mercado livreiro tomado de brochuras de autoajuda, infanto-juvenis e obras de ficção duvidosa (a maioria escrita por atores e celebridades), chega a ser alentador um catálogo de caráter humanista.

OPÇÃO NAS PRATELEIRAS

Não se trata de impor uma linha, mas de oferecer uma alternativa. Há mesmo um sem-número de opções nas prateleiras, um leque vasto de livros de preços não proibitivos, mesmo em meio à crise. Saber que o volume de Federico de Rosa está entre eles é, para o leitor, algo confortante.

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