
Em 20 de dezembro de 2016, o senador paranaense Alvaro Dias gravou um longo depoimento ao livro “Encontros do Araguaia”, por mim organizado.
O trabalho recolhe depoimentos entrevistas de alguns dos principais personagens da história política do Paraná, cuja influência se registra a partir do século 20. Nomes como Jaime Lerner, Euclides Scalco, René Dotti e Osmar Dias, João Elísio Ferraz de Campos, Maurício Schulman… (E mais: dia 5 de junho, Oscar Alves, genro de Ney Braga, contará ao projeto “Encontros do Araguaia” – embrião do futuro livro do mesmo nome – como o ex-governador moldou a sua grande liderança nacional; já no dia 12 de junho, Maurício Schulman, que presidiu a Copel, BNH e Eletrobrás, deporá também sobre os tempos de Ney e sobre sua própria biografia).
INSATISFEITO
Foi durante a entrevista que Alvaro Dias narrou sua insatisfação com o Partido Verde, o PV, na qual havia ingressado às pressas, logo depois de deixar o PSDB. Reproduza-se o trecho: “Quando ingressei no PV era o porta-voz da oposição. Estava todo dia no Jornal Nacional. Mas sem uma legenda forte, como a do PSDB, fui alertado de que não poderia ‘emplacar’ mais entrevistas”. Isso, concluiu, seria uma perda de espaço vital para sua pregação.
FRANQUIAS PARTIDÁRIAS
“O PV não cresce porque a direção não deixa crescer. Os partidos políticos, lamentavelmente, são tentados por algo que se chama Fundo Partidário, principalmente seus dirigentes. O milionário Fundo Partidário. De modo que se transformam em franquias. Aqui (no Paraná), em São Paulo, no Rio.
“Entrei no PV porque não vi outro lugar que não estivesse contaminado. Sei que será um ônus. Tempo de TV, dificuldade de aliança. Se bem que, hoje, o ideal seria não fazer aliança alguma. Você sozinho tem mais chance. O cenário atual é de rejeição aos conluios, à coalizão de forças.”
LEGISLAÇÃO ENGESSADA
“Eu poderia não fazer aliança, eu poderia não me filiar a um partido, eu poderia ser um candidato independente, mas a legislação eleitoral engessa. Se a legenda não tiver representantes na Câmara você não participa nem de debates.”
“Hoje o PV tem sete deputados federais, entre eles o mais ilustre é o Sarney Filho. E um senador, este que vos fala.”
PODEMOS

Durante a entrevista, Alvaro Dias revelou que estava sendo “cortejado” pelo ‘Podemos’. A deputada federal Renata Abreu, presidente nacional do PTN, em São Paulo, insistia que ele aderisse à legenda.
Palavras de Alvaro: “Tenho sido convidado, sim, para um projeto que prevê a refundação de um partido ou a fusão com outra sigla, o que abriria a janela para o ingresso de deputados. A legenda teria o nome de ‘Podemos’, calcado no projeto do partido que se tornou a terceira força na Espanha.”
“A deputada Renata Abreu me surpreendeu. Bem articulada, bem preparada, empolgada. Ela tem insistindo muito. Os deputados do PV, inclusive, já me disseram: se eu sair, esvaziam totalmente o PV. Por enquanto, inclino-me a ficar onde estou.”
O DIA DO NÃO FICO
Alvaro não ficou. No sábado (20), acertou filiação ao Podemos juntamente com o senador Romário (PSB-RJ). Ambos têm uma ideia na cabeça e uma oportunidade na mão: Romário embala o sonho de disputar a governo do estado do Rio. Alvaro quer ser candidato a presidente. Seria agora, por via indireta, se o ocaso político de Temer se confirmar. Mas, por óbvio, prefere um mandato de quatro anos.

“Só serei candidato a presidente se conseguir demonstrar que sou um pouco diferente dos outros. Do contrário não tenho chance porque os outros (os grandes partidos) têm mais estrutura.”
As chances de Alvaro Dias, no entanto, parecem mais palpáveis do que há cinco meses, quando gravou o depoimento para o livro e revelou, em primeira mão, o caminho que estava para seguir.
IMPREVISÍVEL
A filiação ao Podemos está marcada para o dia 1º de julho, em evento oficial de lançamento da sigla. O PTN, que ganha agora novo nome, tem 13 deputados federais e a previsão de seus dirigentes é que venha a atrair a adesão de mais dez parlamentares.
O cenário político brasileiro é tão imprevisível, contudo, que até a festividade do Podemos pode ser encurtada. Vale lembrar: caso Michel Teme renuncie, o Congresso Nacional terá 30 dias para convocar a eleição indireta e escolher um novo presidente da República. Se Alvaro apresentar sua candidatura será pelo Podemos.
