As rádios, sempre as rádios, ligeiras como a internet não consegue ser, lembraram o diálogo telefônico de Lula com Dilma em que a presidente deixa claro que o nomearia ministro-chefe da Casa Civil caso se confirmassem as informações de que o ex-presidente seria preso na Operação Lava-Jato. O “Tchau, querida”, que finaliza a conversa viraria um slogan do movimento pró-impeachment de Dilma. E Lula da Silva nunca mais seria o mesmo.
Ao ficar frente a frente com o juiz Sergio Moro, nesta quarta-feira (10) em Curitiba, em um embate com os elementos fantasiosos da “lucha libre” mexicana, o ex-presidente não deixou de responder perguntas. Ora foi cordial, ora indignado, ora brevemente destemperado, como é de sua índole, mas sem transbordar no longo período de interrogatório. Ao fim e ao cabo negou ser proprietário do tríplex no Guarujá. Era previsível. Se admitisse revelaria seu vínculo com o esquema de corrupção da Petrobras.
SEM MUITO BARULHO
O Lula dos ataques e do enfrentamento ficou reservado ao palanque pós-depoimento, diga-se. O Lula réu encarou a Justiça da maneira que se deve encará-la: com temperança.
Talvez porque saiba que se há necessidade de um espetáculo, com efeitos mais convincentes do que o barulho produzido por movimentos populares, deve guardá-lo para denúncias com mais consistência.
TRÍPLEX
Até que se prove o contrário, não há indícios suficientes que corroborem as informações vindas de delatores premiados que apontam Lula da Silva como proprietário do tríplex. Nada que indique isso acima de qualquer dúvida razoável. E é assim que trabalha a Justiça.
Se há uma prova contundente, ela ainda está por ser conhecida ou levada a público. Lula tem flertado bem com as incongruências da Justiça, mas dificilmente escapará ileso a todas as denúncias que o assombram. “É só uma questão de tempo”, dizem procuradores do Ministério Público Federal. E o tempo nem sempre trabalha a favor da Justiça. Muito pelo contrário.
CANDIDATO PELA SEXTA VEZ
O calendário eleitoral prevê que, caso Lula não seja condenado em segunda instância até o início do ano que vem – e ele sequer foi condenando em primeira –, poderá candidatar-se a presidente da República pela sexta vez. É um fato. Será que é preciso esperar um desfecho para que o país dê curso às reformas necessárias?
PANACEIA NACIONAL
Em editorial, o jornal “O Estado de S. Paulo” defende que não. “É perniciosa a tentativa de transformar a Lava-Jato na grande panaceia nacional”. Trata-se de um recado para o Ministério Público Federal que dá impressão de estar se utilizando politicamente da operação policial para “denunciar a generalizada podridão existente nas instituições nacionais. Tudo estaria podre no país”. Exceto o Ministério Público, é claro.
Por mais reveladores e eficazes que sejam os atos da Lava-Jato não podem substituir o que é prioritário para o Brasil: a recuperação econômica, a solução para os 14 milhões de desempregados e as reformas prioritárias para que o país não se transforme em um Titanic sempre a vislumbrar o seu iceberg inescapável.
Lula passou aqui por aqui, mas não deixou recado. O recado deve vir dos brasileiros.
A IMPRENSA DEU UM BANHO
Não foi só a chuva que banhou as ruas de Curitiba em um dia em que, longe de qualquer dúvida, exercitou-se a democracia e a liberdade de manifestação. Ainda que um apresentador da TV aberta tenha exagerado ao narrar a chegada de Lula ao prédio da Justiça Federal como se fosse uma partida de futebol, o que se viu foi uma cobertura ampla, imparcial e irrestrita.
Os canais de notícias a cabo reforçaram as equipes locais enviando jornalistas e comentaristas para a capital paranaense. A mídia internacional também se fez presente. Em uma contagem informal, um repórter de rádio identificou jornalistas vindos do Oriente Médio, da Espanha e da China.
LULA CERCADO
Lula foi surpreendido por repórteres quando, sentado no banco traseiro de um carro blindado e de vidros escuros, deixou o escritório de um advogado localizado no bairro Bacacheri. Surpreendeu-se outra vez quando da passagem de um trem que impediu a comitiva de prosseguir. E de novo mostrou-se surpreso quando desembarcou a 200 metros do prédio da Justiça Federal e viu-se cercado. Rapidamente voltou para o carro.



