
A notícia poderia ser simplesmente resumir-se no texto frio: “morreu em São Paulo e lá foi enterrado, o professor PhD John Robert Schmitz, titular aposentado, linguista da Unicamp”. Foi vítima de atropelamento de moto, na Capital paulista.
Mas a história de vida e as peculiaridades da carreira do pesquisador em linguística Schmitz são muito amplos. Por exemplo, o fato de ele, sendo um norte-americano, tendo dado aulas em importantes universidades como a Columbia University, haver optado pelo Brasil. Há 40 anos. E no Brasil se fez requisitado e reconhecido justamente pelo domínio dos muitos meandros da língua portuguesa. Vivia sua aposentadoria de catedrático da Unicamp, produzindo trabalhos científicos, dando consultorias e participando de bancas de doutorado e mestrado Brasil afora.
A ligação do professor John Roberto Schmitz com Curitiba é significativa: aqui vinha, com a esposa, visitar, com certa frequência, a família do filho Edward e da nora Maria Sandra Gonçalves, e aos dois netos.

Eu mesmo por anos seguidos fui leitor de seus textos sobre a língua portuguesa apresentados na revista Língua Portuguesa, da Editora Contexto, publicação que marcou época no mundo acadêmico brasileiro.
A NOTÍCIA EM SIM
O professor Schmitz morreu no dia 27 de abril em São Paulo, aos 81 anos.
Foi professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp John Robert Schmitz. Vítima de atropelamento de moto ocorrido na tarde do dia 26 de abril, enquanto caminhava pelo bairro do Jabaquara, onde vivia, o professor foi socorrido com vida, mas não resistiu ao trauma crânio-encefálico e faleceu.
SAL DA TERRA
Seu corpo foi sepultado no Cemitério Gethsêmani, no Morumbi, na manhã de sábado, 29 de abril, após a missa de corpo presente celebrada pelo Padre Ricardo Pinto, orientador espiritual da família, que, fugindo à tradição litúrgica das exéquias, escolheu, acertadamente, o trecho do Evangelho de São Mateus sobre o sal da terra para falar do homem que era conhecido pelo espírito de servir e que dedicou sua vida exclusivamente ao trabalho e à família.
As missas de 7º dia foram celebradas dia 3, quarta, inclusive na Igreja das Mercês (19h), em Curitiba, onde vivem um de seus filhos e dois de seus netos.
A FAMÍLIA
Schmitz era casado com a psicóloga Maria Lucia de Oliveira Schmitz havia 53 anos e deixou quatro filhos – a professora de idiomas Márcia, o engenheiro elétrico Edward, o biomédico Robert e o engenheiro químico Paul. Deixou também cinco netos: Daniel (19), John (15), Mariana (11), Thomas (5) e Miguel (1).
Nascido em Manhattan, em Nova York, John veio para o Brasil na década de 1960, atraído pelos escritos de Euclides da Cunha. Na semana euclidiana, tradicional evento de São José do Rio Pardo, conheceu a esposa.
Casaram-se logo e foram para os Estados Unidos onde viveram os oito primeiros anos de sua vida em comum. Em 1970, a pedido da esposa, o docente veio para o Brasil para se estabelecer profissionalmente.
COMPRANDO “APANHADOR”
John era um intelectual de hábitos simples. Quando não estava lecionando, lendo, revisando teses ou viajando para congressos e bancas, dedicava seu tempo à leitura diária da Folha de S. Paulo, à coleção de selos, às sessões de cinema e às diligências pela cidade, caminhando, como ele adorava fazer. Outro de seus hobbies, este com um viés profissional, era comparar as edições de “O apanhador no campo de centeio” nos diversos idiomas que dominava. A paixão pela leitura, incluindo a admiração pela obra de Salinger, foi transmitida ao neto mais velho, Daniel, estudante de Direito.
John também adorava reunir a família, fosse em São Paulo ou em Peruíbe, litoral paulista, onde passava os verões. Vivia inventando brinquedos para os netos. De uma caixa de papelão fazia um jogo de amarelinha ou uma casinha com portas e janelas. À mesa, o professor era eclético, mas muito frugal. Só se rendia ao exagero quando o assunto era bolo.
A CARREIRA
Graduou-se em Letras pelo Brooklyn College Of The City University Of New York (1957). Fez mestrado em Letras e Linguística pela Columbia University (1961) e doutorado em Letras e Linguística pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1975). Cursou o pós-doutorado na State University Of New York At Oswego, Suny/Oswego, Estados Unidos. No Brasil lecionou em diversas instituições, inclusive na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e na Unicamp, onde integrou o Departamento de Linguística Aplicada. Além de lecionar, desenvolveu pesquisas na área de Linguística, com ênfase em Teoria e Análise Linguística (estrangeirismos, lexicografia, língua portuguesa, voz passiva e lexicologia).
DIRETOR DO IEL
Dirigiu o Instituto de Estudos Linguísticos (IEL) da Unicamp na década de 1990, tendo publicado mais de uma centena de artigos científicos. Foi autor do Dicionário de Epônimos e Topônimos da Língua Portuguesa, lançado em2014. Com Almeida Filho, publicou o Glossário de Linguística Aplicada: Inglês-Português/Português-Inglês, em 1998, editado pela Pontes. Publicou ainda 21 capítulos de livros. Deu contribuição a divulgações na mídia através de resenhas e entrevistas, entre elas abordando língua pasteurizada, dinâmica do português falado e para que servem os dicionários, entre outros.

