domingo, 31 agosto, 2025
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Marcus Gomes: A era dos condomínios de 600 andares

A enciclopédia Britannica se refere à palavra arranha-céu (skyscraper em inglês) como um edifício muito alto de vários andares. O nome entrou em uso pela primeira vez durante a década de 1880, logo após os primeiros prédios grandes serem construídos, nos Estados Unidos. O termo se aplicava geralmente a edifícios de 10 a 20 andares, o que equivale a uma altura de 30 a 60 metros, mas no final do século XX, medidas como essa já não alcançavam sequer as sandálias de Zeus no Olimpo, que dirá seu saiote.

O jornalista americano Dan Cortese explicou no site “The Bim” a nova terminologia para esses Godzilas arquitetônicos que podem causar uma entorse incurável no pescoço ou então provocar uma pressão da laringe que pode sufocar um observador que se encontre na calçada em frente ao mega edifício e se dispõe a enxergar o cume.

Em primeiro lugar, eles não podem ser definidos como prédios altos ou arranha-céus. Isso seria fichinha. Uma estrutura de dez andares pode ser o edifício mais alto de uma cidade, se ela estiver localizada no Kansas em um cenário de decadência do faroeste ou na Curitiba da década de 1940.

Até meados do século passado, os vocábulos “alto”, “arranha-céu” ou “edifício alto” eram usados de forma intercambiável para definir estruturas verticais de concreto e aço; mas isso não é mais possível quando se compara um prédio de oito andares com outro que empilha 150 pavimentos.

A verdade é que, na classificação atual, um prédio de 8, 10 ou 15 andares – equivalente, no que tange ao mais alto, a 45 metros, é uma construção vertical que se eleva a uma altura significativa ou perceptível, mas não é, de verdade, um arranha-céu.

De acordo com Cortese, para atingir essa categoria, há algumas regras que devem ser obedecidas. Por exemplo, a estrutura não deve estar presa a cabos de aço ou suportes para permanecer de pé e a área habitável, com apartamentos, salas comerciais e pisos de circulação, deve ocupar pelo menos 50% (ou metade) da altura total. Torres de comunicação e observação, portanto, estão fora.

O icônico Empire State Building

Um arranha-céu só pode ser considerado como tal quando alcança, no mínimo, 150 metros ou 50 andares, porém mesmo essa altura tonta já não ombreia com edifícios construídos ainda no começo do século XX. Omito detalhes sobre o Empire State Buiding, de 381 metros, inaugurado em 1931, época nostálgica em que aviões de asas duplas semelhantes àquele pilotado pelo Barão Vermelho flanavam por aí, porque será assunto de colunas posteriores. De qualquer forma, é notável admitir que a ambição do homem para alcançar o céu (e o sol) em países fora do eixo de poder da América não tenha se esgotado nas asas de cera de Ícaro ou, tratando de edificações, na Babel bíblica erguida com barro e fé.

Elis Graves Otis patenteou o elevador em 1853, há quase dois séculos, e nos vemos capengando, os brasileiros, em múltiplas torres de quatro andares nos condomínios do cafundó, porque erguer um pavimento a mais exigiria a instalação de um elevador. A culpa não é dos engenheiros, dos arquitetos, tampouco dos condôminos, mas sim da política de planejamento urbano das cidades que, forçosamente, nos empurrou para uma situação em que o trabalho, a residência e o lazer estão localizados a léguas e léguas um do outro em reinos muito muito distantes.

Sob outro prisma, julgamos que esse desejo profano de nos cercarmos de mato e mosquito, como o ermitão em uma caverna, cai bem porque afinado com a onda verde que nos leva à expiação cada vez que colocamos as compras em sacolas de plástico. Não é má vontade, tampouco falta de consciência ambiental. Todos querem preservar o mundo para as gerações futuras. É nossa casa, nosso lar, nosso milagre do big bang, etc. Podemos exigir que um marciano ao bater à porta limpe os sapatos e só transporte nossos cérebros em embalagens 100% recicláveis. O que mais? A verdade é que não sabemos nada e entendemos menos ainda.

O cineasta Woody Allen diz, em sua autobiografia, que na vã tentativa de manter um relacionamento civilizado com a ex-mulher, Mia Farrow, comprou peixes para o lago na casa de campo. Em pouco tempo, os peixes comeram os sapos que comiam as larvas e uma nuvem de mosquitos invadiu o lugar. Uma boa ação que resultou em um desequilíbrio no ecossistema.

Com tudo isso, quero dizer que não se trata de abdicar da expansão, mas conceber cidades e metrópoles que crescem para cima e, assim fazendo, poupam as escassas reservas naturais. O cenário hoje é aquele do retirante que migra do centro para a periferia como dantes migrou do rural para o urbano. O comércio, as fábricas, os escritórios estão de um lado enquanto a população está de outro. É um erro diametral. Dá naquilo com o que agora nos preocupamos e nos afligimos: uma região central ectoplásmica habitada por figurantes do seriado Walking Dead.

Supertall e Megatall

É difícil saber quanto tempo os príncipes do petróleo, sortudos em usufruir do ‘dinossauro líquido’ em abundância, vão desfilar seus turbantes em limusines intermináveis, mas eles estão certos em construir pináculos que desafiam, em equilíbrio, os sapatos salto agulha e ultrapassam, em altitude, as nuvens da troposfera em cidades cravadas no deserto. A China, que tem cinco dos 10 prédios listados no ranking dos mais altos do mundo, pode querer, com suas edificações impressionantes, confirmar sua imagem de potência econômica e apagar aquela de vendedora de produtos do Paraguai. Os países do Oriente Médio, no entanto, apontam para outro caminho: o da verticalização dos centros populacionais como medida de emergência. Até porque, diferentemente dos chineses, eles não dispõem de território extenso para abrigar a população. “Tudo é deserto e eu sou deserto”, escreveu Fernando Pessoa sobre aquilo que, em se tratando dos povos árabes, é literal. A saída é o firmamento.

Há um século as técnicas de engenharia e construção vêm dando provas de que podem desafiar a gravidade e os ventos fortes – furacões e terremotos são outros quinhentos – erguendo estruturas habitáveis em níveis que quintuplicam a altura de um reles arranha-céu com seus 50 pavimentos horizontais. Como classificar esses gigantes? A resposta: ajustando a terminologia.

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Classificação dos prédios “arranha céus”, supertall e megatall

Arranha-céus, ora em diante, conforme assinala Cortese, não estão mais no topo das paradas. Eles ficaram para trás em altura e elegância, na categoria média dos prédios que alcançam entre 150 e 300 metros. Aqueles que ultrapassam essa marca, espalhados pelo mundo – e são quase 300 em contagem recente – figuram na faixa dos 300 aos 600 metros e são chamados de Supertall. E há ainda os que passaram a pertencer a um clube exclusivíssimo, no qual se insere o Burk Khalifa, integrante da categoria dos Megatall (mega alto em inglês) e sem relação alguma com caminhões que se transformam em robôs e vice-versa. Estes são os que já venceram a marca dos 600 metros e vão ao infinito e além.

A terminologia, por óbvio, não foi tirada da cartola. É uma criação do Conselho de Edifícios Altos e Habitat Urbano (CTBUH), organização sem fins lucrativos fundada em 1969, nos EUA, que explora os motivos pelos quais o aumento da densidade populacional e do crescimento vertical pode dar suporte a cidades mais sustentáveis e saudáveis. Sim, é o contrário do “eu quero uma casa no campo”.

Na mesma Arábia Saudita disposta a erguer prédios que alcancem a face barbuda de Alá, está em construção, em pleno deserto, um grande condomínio-cidade chamado “The Line”. O projeto original previa que a edificação, com 500 metros de altura e 200 de largura, se estenderia em linha reta por 170 quilômetros ao longo do Mar Vermelho – aquele mesmo que Charlton Heston abriu brandindo o seu cajado no longa “Os Dez Mandamentos” (1956).

O que era uma utopia futurista, no entanto, caiu na realidade, a extensão agora será de 2,4 quilômetros e a expectativa de abrigar 9 milhões habitantes reduziu-se para um número mais factível de 300 mil. Mesmo assim, o conceito de urbanismo com estruturas deslumbrantes, jardins verticais e fachadas de vidros espelhados com altura equivalente a 130 andares, capturou a imaginação de especialistas e segue produzindo comentários em todo o mundo. Em seu lançamento, o The Line foi apresentado como uma cidade sem carros, em que o meio de transporte seria o trem-bala, permitindo que as pessoas circulassem de um lugar para o outro em um tempo exíguo, não superior a cinco minutos.

A ideia de uma megalópole futurista, composta de condomínios enfileirados e estruturas de serviço e entretenimento (estádios de futebol, por exemplo), e ainda no coração do deserto, é uma narrativa de ambição e busca pela harmonia entre inovação e sustentabilidade. As críticas existem e estão relacionadas ao investimento fabuloso, que pode ultrapassar a marca de 1 trilhão de dólares, e à figura de seu idealizador, o príncipe regente Mohammed bin Salman, que age como um ditador das arábias, passando o trator nos povos pelo caminho e, ao que parece, silenciando os opositores com técnicas que envolvem bocas cheias de formiga, paletós de madeira e sapatos de cimento. É demais. Mas não o suficiente para que descartemos a possibilidade de embarcar em projeto idêntico. Claro, sem apelar para as técnicas execráveis do príncipe bin Salman.

Marcus Gomes é jornalista e advogado. Escreve sobre política, direito e assuntos do dia a dia.

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