Um jornal que saiu das sacristias da Igreja Católica para alcançar seu ápice a partir da década de 70, assumindo um papel de suma importância no seio da sociedade paranaense. Essa é a trajetória do semanário Voz do Paraná, que mostrou ousadia frente aos limites da censura imposta pelo Regime Militar, realizou importantes matérias investigativas e ainda inventou na imprensa paranaense um espaço semanal de entrevistas no estilo perguntas e respostas, chamado “Roda Viva”.
O título “Roda Viva” precedeu ao do programa com igual nome na TV Cultura de São Paulo.
A história desse jornal que marcou seu nome na história da imprensa paranaense é alvo de um livro, do jornalista Diego Antonelli, em processo de pesquisa e redação que será lançado pela Editora Alma Mater com o nome “Voz do Paraná – Uma história de resistência”. A data de lançamento ainda não está definida, mas a tendência é de que seja publicado no decorrer deste ano.
Diego Antonelli recentemente lançou a obra “Paraná: Uma História”.
FIM DA SACRISTIA
Idealizado em 1956 pelo então Arcebispo de Curitiba, Dom Manuel da Silveira D’Elboux, a Voz do Paraná foi o jornal oficial da Igreja Católica até o início dos anos 70, quando o médico radiologista e ex-secretário estadual de Saúde Roaldo Koehler (governo Bento Munhoz da Rocha Neto) tomou as rédeas do veículo – até então sob responsabilidade da congregação dos padres claretianos.
Com Roaldo, o jornal passou a ter uma nova feição.
Os jornalistas Aroldo Murá G. Haygert, diretor do jornal, Celso Nascimento, chefe de redação e Maí Nascimento, repórter, foram convocados por Roaldo para tirar o jornal das sacristias e passar a se dedicar aos interesses da sociedade.
Assuntos políticos, econômicos e sociais passaram a ser alvos constantes de reportagens produzidas pela equipe profissional, dedicada e antenada com a sociedade abrangente. Por lá passaram ainda nomes de peso na imprensa nacional, como Toninho Vaz (que escreveu a biografia sobre Paulo Leminski, e foi redator do Fantástico) e Teresa Urban, depois notabilizada como ambientalista.
A Voz do Paraná foi um oásis em tempos de censura militar. Fazia o que os outros jornais temiam fazer. Nomes opositores ao regime, como Dom Paulo Evaristo Arns e Hélder Câmara, eram ouvidos com frequência pela equipe da Voz. Denúncias envolvendo políticos da época, que poderiam causar a censura ao jornal, também foram constantes no jornal. Verdade que bilhetinhos escritos pelo Regime (via Polícia Federal) eram entregues a Aroldo. Mas isso levava a que os interesses sociais fossem relegados pela Voz.
INOVAÇÕES
Era, portanto, um jornal voltado à sociedade e que sempre buscava trazer inovações aos leitores, como a série de entrevistas “Roda Viva”, que semanalmente entrevistava alguma personalidade importante – seja em termos nacional ou estadual.
A Voz do Paraná fez da função primária do jornalismo, a informação, uma ferramenta de extrema importância para os avanços políticos e sociais, o que certamente inseriu o nome do jornal como um dos mais importantes veículos que foram veiculados no estado.
LEON PEREZ
Feitos notáveis foram muitos. Pelo menos dois deles o livro de Antonelli vai abordar: um, a ampla série de reportagens sobre irregularidades funcionais na Universidade Federal do Paraná e o amplo noticiário sobre a queda do ex-governador Haroldo Leon Peres, destituído do governo sob a acusação de ter tentado achacar a empreiteira CR Almeida.
A matéria só fora publicada pela revista Veja, mas a edição acabou apreendida pelo regime, na boca das máquinas. O conteúdo do material jornalístico acabou “milagrosamente” na redação de VP, que o utilizou.
Com isso, ganhou, em seguida, a presença constante dos censores enviados pela Polícia Federal com seus bilhetinhos de vetos.
OS MALDITOS
Havia uma ampla relação de personagens que VP não poderia citar. Eram considerados inimigos do governo militar, como Dom Helder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns (em certas circunstâncias) e o bispo de São Felix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, quer se notabilizara por comandar a resistência e a expulsão de agricultores de suas terras, atos de grandes fazendeiros, e geradores de muitas mortes. O bispo espanhol foi entrevistado por Vozes do Paraná e não poupou seus adversários.
Outro episódio relatado com detalhes pelo jornal foi o da cassação pelo regime militar do então presidente do Tribunal de Justiça, Alceste Ribas de Macedo. O jornal deu cobertura ampla à argumentação dos opositores de Alceste, apontado eventuais falhas suas e que sedimentaram o material acusatório.
LERNER E SCALCO
Uma das primeiras entrevistas de Jaime Lerner como prefeito de Curitiba, ano de 1971, foi dada ao espaço “Roda Viva”, registrada fotograficamente em que JL aparece com Koehler e Murá no livro.
Affonso C amargo Neto e Euclides Scalco estavam entre os políticos mais notórios dos anos 1970/80 que registraram opiniões históricas no semanário.
As fontes maiores de Antonelli somos os jornalistas Celso, Maí e Aroldo, materializadores da grande mudança que foi possível porque Roaldo Koehler nela consentiu e a bancou.
Vale esperar pelo livro de Antonelli.

