
Em dado momento, o ex-presidente da Câmara Municipal de Curitiba, João Cláudio Derosso, julgou-se eterno. Ele presidia a Câmara, mas raramente comparecia às sessões. Alojava-se no último andar do anexo e ali despachava, como um rei em seu castelo. Quando dava a honra de sua presença era para defender um projeto da prefeitura, o que fazia com unhas e dentes, ou para desancar um adversário.
EM AÇÃO?
Em 2011, o céu caiu sobre sua cabeça. Descobriu-se, entre outras coisas, que a revista “Câmara em Ação” – um título involuntariamente sarcástico para um legislativo dormente – era uma fachada para justificar gastos ilícitos de R$ 14 milhões. Com a multa de R$ 22 milhões imposta pelo Tribunal de Contas do Paraná(TCE), agora o valor chega a R$ 36 milhões.
10 MILHÕES
O objetivo não escamoteado de promover vereadores amigos no informativo já era por si só absurdo. Descobriu-se, no entanto que a tiragem da revista de impressionantes 10 milhões de exemplares (cinco vezes a população de Curitiba) não era confirmada. Pelo contrário. Não havia comprovantes dos serviços de diagramação e distribuição. Só em relação ao papel, como frisa o TC, faltaram notas de compra de 406 toneladas.
MARIDO E MULHER
Derosso era casado à época com a jornalista Claudia Queiroz e contratou a empresa da mulher, a Oficina de Notícias, mesmo sendo ela funcionária da Câmara no período da licitação. Claudia e sua empresa, que contava também com o pai entre os sócios, faturaram R$ 5 milhões no contrato, valor que ainda não foi devolvido aos cofres públicos.
TEM JUROS
Em um depoimento que atraiu o interesse da mídia, na Câmara, ela atacou a imprensa e justificou o gasto com as despesas com funcionários e empresas terceirizadas, todos envolvidos na confecção da revista. Há que se duvidar. E muito, já que a publicação de poucas páginas tinha periodicidade irregular e tiragem desconhecida. À decisão cabe recurso.
Mas o TC já avisou: os juros e a correção monetária sobre o valor total da dívida continuarão correndo.
TRABALHO DA IMPRENSA
Por último, mas não menos importante: há que se fazer justiça à Gazeta do Povo, que levantou o escândalo da Câmara em todas as suas dimensões, deu ampla cobertura ao desenrolar das investigações e acabou, assim, assinalando mais um ponto positivo da imprensa livre. Foi diferenciado jornalismo investigativo feito pelo jornal. Eram dias em que a Redação era dirigida por Maria Sandra Gonçalves, e cumpria – por decisão de Guilherme da Cunha Pereira – missão que ajudou a mudar “hábitos políticos” locais. Lembram-se, também, do grande levantamento feito pela GP com a série de reportagens dos “Diários Decretos”? O jornal ajudou a desmontar uma rede de funcionários fantasmas na Assembleia Legislativa, episódio que desvendou a ação criminosas de um sem número de funcionários e até deputados.

