Os sinais evidentes de que a Gazeta do Povo, o maior jornal do Paraná, deve extinguir sua edição impressa já é tema do noticiário especializado e alvo de discussão dos cursos de comunicação. Muito pelos motivos errados. É difícil crer que um jornal quase centenário – a Gazeta completou 98 anos no último dia 3, sem o espocar do champanhe – vá retirar-se de um mercado em que, há muito, impera sozinha.
Sinal dos tempos? Sim, sinal dos tempos. Mas há que se levar em conta que houve outros sinais dos tempos e o jornal de Francisco Cunha Pereira Filho passou incólume por todos eles.
Aqui nesta mesma coluna, no dia 1º de fevereiro alertava-se para a decisão da direção jornal de pôr fim à renovação de assinatura da edição impressa. É comum nas repartições públicas, sempre no início de cada ano, que as assinaturas de jornais sejam renovadas às dezenas para abastecer as diretorias.
PUBLICADOR
Outro indício claro e mais técnico referiu-se à compra de um publicador (um software), que só atenderia à edição digital. No âmbito da empresa, o sócio principal da família Cunha Pereira, Mariano Lemanski, decidiu que deixaria de investir na área de jornais para dedicar-se somente à TV, que segue superavitária. E só.
O FIM NO INTERIOR
Para completar o ciclo devastador, informa-se agora, sempre extraoficialmente, que a Gazeta deixará de circular em edição impressa em todo o interior do Paraná, a partir do dia 18 deste mês.
Por quê? Desde 2009, oito entre os grandes e médios jornais do país fecharam as portas ou transferiram-se para a internet. Entre eles: Gazeta Mercantil (1920-2009), Jornal do Brasil (1891-2010), O Estado do Paraná (1959-2011), Jornal da Tarde (1966-2012), Brasil Econômico (2009-2015).
O algoz principal é a tecnologia, a internet, as redes sociais, etc. Os culpados de sempre. Mas por que há os que resistem? Por que há alguns jornais e revistas que criam modelos de negócios que fazem do mundo virtual um braço auxiliar no provimento de notícias? E se o mundo do impresso já teve seus momentos de glória, por que então, jornais de credibilidade inabalável naufragaram justamente nessa época de ouro? É fácil lembrar de periódicos de brilho meteórico como o “Diário do Paraná” e o “Última Hora” que, em pouco tempo, se viram falidos. E a causa não foi somente os dissabores editoriais ou o mau humor do regime político vigente.
CAMINHO ERRADO
Em 1990, os grandes jornais do país decidiram que publicariam apenas notícias, não mais que notícias. As colunas foram emasculadas, os artigos de análise ficaram relegados ao rodapé de página, as matérias ilustrativas, que eram uma verdadeira enciclopédia de temas variados, foram extintas, porque seus autores, os “jornalistas de gabinete” eram considerados profissionais de segunda categoria, que não “ouviam as ruas”, seja lá o que isso signifique.
A um crítico como Paulo Francis, por exemplo (morto em 1997), jamais seriam concedidas duas páginas inteiras, às quintas e sábados, para que ele discorresse sobre o que quisesse e deitasse diatribes, inclusive sobre jornais e jornalistas da casa.
Quando os diários perceberam que deveriam retomar o caminho inverso – o da análise, da crítica, do artigo de bom humor – já era tarde demais.
Notícias, as que saem nos jornais no dia de hoje, salvo raras exceções, são as que saíram na internet anteontem.
Então a internet é a culpada? Bem, os jornais sobreviveram ao rádio, sobreviveram à televisão, e podem muito bem sobreviver à TV. No tempo dos primeiros computadores pessoais (os PCs) corria a piada de que o computador nunca substituiria o jornal porque não dava para levar o computador para o banheiro. Hoje dá.
MOTIVOS DE SEMPRE
Se é uma cortina de fumaça? O fechamento de alguns jornais, aqui e no mundo, revelou depois que não foi o meio impresso que faliu. A falência foi causada pelos motivos de sempre: um emaranhado de decisões equivocadas e problemas financeiros que não encontraram forças para a superação. Quando a lista de erros, inclusive editoriais, supera em muito os acertos, não dá mesmo para culpar a internet.
