sexta-feira, 1 maio, 2026
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Sintomas: Gazeta poderá eliminar edição impressa

Ana Amélia Felizola, Francisco Cunha Pereira, Mariano Lemanski
Ana Amélia Felizola, Francisco Cunha Pereira, Mariano Lemanski

O mar não está para peixe no mundo dos jornais e revistas brasileiros, assim como na maioria dos países do Ocidente.

As exceções para a mídia impressa devem estar na Índia e na China, países em que as tiragens não estão de caindo, mas, em certas situações, até aumentando.

Nesse quadro, a Gazeta do Povo, o mais tradicional e o maior jornal do Paraná, dá sinais claros que estaria fazendo água. Não se trata de mera especulação, mas fatos concretos levam a essa suposição.

O jornal que Francisco da Cunha Pereira transformou numa potência da mídia local (e invejável posição nacional em outros dias) não confirma nem desmente a possibilidade de deixar de ser impresso.

Mas tudo indica que isso pode ocorrer a partir do vencimento da última assinatura do seu ainda rol de assinantes. Vejamos:

SÓ DIGITAL

Nesta quarta-feira, 2, por exemplo, empresa de amigos deste espaço tentou renovar suas assinaturas – duas dezenas – para seus representantes. A informação recebida na Gazeta: “Não estamos renovando assinaturas da Gazeta do Povo impressa. Só fazemos assinaturas da Gazeta digital”.

Pista mais expressiva é impossível, já que a vendagem em bancas não sustenta empreendimento caríssimo como as edições da GP.

Isso ficou evidente quando, recentemente, a GP deixou de circular aos domingos, sendo impressa apenas até sábado, com uma edição chamada de “fim de semana”.

As vendas do jornal no restante do Estado estão praticamente sumidas.

O déficit anual da GP impressa estava andando em cerca de R$ 25 milhões/ano, quando um dos sócios do empreendimento, Mariano Lemanski, deixou a sociedade. O motivo: não via sentido em colocar dinheiro bom em cima de um negócio deficitário, garantem fontes ter sido esse o argumento do empreendedor.

Mariano Lemanski, filho de Edmundo Lemanski – parceiro de Francisco da Cunha Pereira Filho -, ficou sócio apenas no empreendimento RPC, as televisões, que partilha com Guilherme e Ana Amélia, os filhos de Francisco.

A rede de televisão é superavitária, embora também em processo de enxugamento de quadros. E que vai até dispensando alguns de seus expoentes, como Carlyle d’Ávila, que se transferiu para a Globo-Rio.

OS SINTOMAS

Diego Antonelli, Mauri Konig
Diego Antonelli, Mauri Konig

Há vários outros indicativos de que a Gazeta do Povo estaria caminhando para esse fim. Um deles, quando, há pouco mais de ano, começou a demitir gente do primeiro nível da sua redação. José Carlos Fernandes, incomparável com seus textos sobre o lado humano de Curitiba, foi desligado dos quadros da GP, embora se mantenha como colaborador do jornal.

As perdas foram muitas, ceifaram profissionais de diversos setores. Uma das mais lamentadas pelos leitores foi a do jornalista Diego Antonelli, que se especializou em História do Paraná. A Gazeta deu bilhete azul naqueles dias também a Mauri Konig, um dos mais importantes nomes da imprensa brasileira no jornalismo investigativo. Ganhou prêmios nacionais e internacionais com suas investigações, ganhando, em contrapartida, desafetos duradouros. Isso sem falar os fotógrafos de alto nível que foram demitidos nesses últimos meses.

PERDAS SEGUIDAS

Essas demissões citadas eram apenas os primeiros sinais de que o jornal, já com vendagem em bancas quase sem expressão, iria acentuar processo de desaceleração.

Ao mesmo tempo em que mudava quadros jornalísticos (uma das perdas foi Eduardo Aguiar, insuperável “carpinteiro de jornal”) -, a Gazeta foi diminuindo em páginas e tamanho.

O tamanho “berliner”, o pequeno formato do atual impresso, foi a inquestionável mostra de que o jornal identificado com grandes momentos do século 20 no Estado, estava ameaçando desaparecer.

Diminuía em tamanho e, ao mesmo tempo, deixava de ser caixa de ressonância da vida paranaense, aquele trabalho que Francisco da Cunha Pereira Filho tão bem soube executar.

“SOFT” QUE DENUNCIA

Quem é do ramo jornalístico moderno sabe que o chamado “Publicador”, soft para definir a direção que tomará o material jornalístico – se impresso ou digital – diz tudo sobre o futuro de um jornal. Pois bem: dias atrás a Gazeta do Povo resolveu fazer um “upgrade” de seu “Publicador”. Comprou novo soft. Mas, com apenas a finalidade digital.

Quer dizer: o “Publicador” não está previsto para ser usado na indústria gráfica do jornal. Será usado apenas no site.

Por último, mas não menos importante: ontem a Gazeta do Povo resolveu transferir para os próximos 30 dias as novas demissões de seus quadros jornalísticos. Estavam previstos dez bilhetes azuis, que, agora, só serão entregues quando votarem de férias os contemplados.

Precisa de mais pistas sobre uma história que, para muitos leitores, já estaria mais ou menos delineada há anos?

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