
No amplo depoimento, 3,5 horas, que deu, dia 23, segunda-feira, ao projeto “Encontros do Araguaia” – primeiro passo do futuro livro que registrará o testemunho de personagens vitais na montagem da História do Paraná de hoje -, Jaime Lerner não fez críticas diretas a Gustavo Fruet e nem citou o nome de Rafael Valdomiro Greca de Macedo. Na verdade, apenas passou por cima do controvertido assunto “vias calmas”, que não apoia. Embora admita que a invenção de Fruet tenha um lado bom, o de ajudar a diminuir acidentes de trânsito.
Greca de Macedo, todos sabem, foi criatura concebida por Lerner, contra o qual, no entanto, ele se voltou anos depois, ao aliar-se ao arquirrival de Jaime, Roberto Requião.
Houve apenas uma referência oblíqua a Greca de Macedo, “em passant”.
Nada mais que isso: nem aplausos nem mágoas com relação ao prefeito (que existem, por parte de JL). Nenhuma referência, também, à “Aranha Marron”.
CASA E TRABALHO
Insistiu num debatidíssimo tema mundo afora, mas com pouca aceitação no Brasil: os problemas de habitação em Curitiba podem ser resolvidos, em boa parte, com a construção de moradias – populares ou não – próximas ao local de trabalho dos moradores.
Lerner não teria dúvidas, por outro lado: nos dias de hoje, se lhe coubesse agora o papel de prefeito de Curitiba (que foi por três vezes) de “fazer tudo de novo”.
“PROFÉTICO”
Quer dizer: encararia o papel “profético” que teve a partir de 1971, quando, contra todos os “lobbies” empresariais, fechou a Rua XV de Novembro, transformando-a em rua exclusiva para pedestres; desapropriaria áreas importantes para a implantação das vias rápidas e as das canaletas para o expresso. Enfrentaria o Ministério Público e os muitos óbices hoje existentes para fazer prevalecer a sua política que privilegiou também a implantação de parques na cidade e gerou soluções surpreendentes, como a Ópera do Arame.
COM NEY
Embora admirador de Ney Braga, Lerner sabe que nunca foi alguém do seu grupo político. E Ney era muito forte nos “anos de chumbo”, o período ditatorial militar. Nas vezes, confessou, que despachava com Ney no Palácio Iguaçu (embora não subordinado a ele, devia-lhe algumas satisfações), sentia que o general mostrava-se tenso. Falta de sinergia entre os dois?
MILITARES
Jaime garantiu jamais ter feito a apologia do movimento militar, em cujo período foi escolhido prefeito de Curitiba, mesmo em discursos sequer referenciou-se ao governo federal, embora tivesse de ser filiado aos partidos que a ele deram sustentação.
GRANDE MUNDO
O momento de reencontro com a Curitiba dos anos 1950 é o da revisita que Lerner faz à barão do Rio Branco, que teve todo um encantamento mágico em sua infância. O urbanista foi descrevendo os mais importantes prédios da rua – os das rádios RB2 e Guairacá, a Assembleia Legislativa, o Curitibano, o antigo Palácio do Governo (que hoje é sede do MIS) … A estação ferroviária.
A grande referência era com certeza a casa da família comandada por seu Felix e dona Elza, que também sediava a “Casa Felix”, de armarinhos, ali, por muitas vezes, Jaime Lerner ajudou os clientes, colonos, gente simples, especialmente vinda do interior, a calçar sapatos.
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