
Charles Dickens não saberia, mas antecipou em pouco mais de um século o maio de 68: “Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero.”
Até agora, o cinquentenário do nosso ano louco passou despercebido e, se foi lembrado, foi do jeito torto. A visão de que 1968 foi o ano que os militares endureceram e nós não perdermos a ternura jamais, para ficar numa frase de camiseta de Che Guevara, peca pela inocência e pelo romantismo e, nesse caso, eles andam juntinhos.
Os jovens que embarcaram em viagens alucinógenas e mesmo aqueles que não embarcaram descobriram, por exemplo, que o fim da ditadura gritada nas ruas não era necessariamente um pedido de retorno à nossa democracia claudicante. O que se queria, mas era devidamente escamoteado, era a instalação da “ditadura do proletariado”, uma aberração logo confirmada e jamais aplicada em países que experimentaram a revolução comunista, e que, ainda assim acalentava os sonhos dos jovens da época, tão esquerdistas quanto, pela ordem, José Serra (o último presidente da UNE), Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Nunes Ferreira e Moreira Franco, este membro da Ação Popular, uma organização de tendênica maoista que iria dar muito trabalho.
Zuenir Ventura no clássico “1968 – O Ano Que Não Terminou”, resume o ano de 1968 em seu primeiro dia ou na véspera, no réveillon da cada da Helô, tão notável quanto foi o último baile da Ilha Fiscal, mas com menos rendas, com menos pérolas e, certamente, com menos roupa. Ali antecipou-se a revolução de costumes que, amargamente, seria o que restou de nossa revolução social, tão recheada de discursos, mas alheia aos que de fato deveriam dominar a cena: os pobres.
O Paraná esteve inserido no contexto (uma expressão da época), porque, em 1968, José Dirceu estava entre os presos que trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick. Sete anos depois, ele desembarcaria no Paraná para viver uma clandestinidade confortável em Cruzeiro do Oeste, onde ganhou o apelido de Pedro Caroço e o amor de Clara Becker, a dona da butique da cidade. Assim, era recebido no bar que frequentava: “Ele tá de olho é na butique dela”. Nada mal para um “terrorista” procurado.
Na França onde, ao que parece tudo começou, lá se vai meio século, uma das frases pichadas no muro dizia: “É proibido proibir”. O que não impediu anos depois que o proibissem o uso da burca, um símbolo muçulmano que guarda a identidade das mulheres fora de casa.
De resto, ficou o gostinho de quero mais cantado em prosa e verso pelos hippies que anunciavam a Era de Aquário. Bem, passaram-se quase duas décadas desde que adentramos no tal período de conjunção dos astros e até agora necas.
